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Filme Observação

A Montanha Mágica

Jodorowsky proporcionou-me algumas das mais deliciosas leituras em banda desenhada, em particular “O Incal” com o falecido Moebius, as suas experiências cinematográficas foram algo que, na minha juventude sempre me estranharam, na realidade ainda estranham. O sentimento de estranheza talvez seja um dos principais sentimentos, provocado na minha modéstia opinião, pelo surrealismo base dos seus filmes.

A Montanha Mágica é talvez, a par de El Topo, o seu filme mais conhecido. Um filme recheado de simbolismo(s), que explora no seu fio condutor a dicotomia real – sonho/surreal. Neste filme, onde podemos identificar duas personagens principais, o Alquimista e o Ladrão. O Alquimista é um mentor, um facilitador, ajuda o ladrão a esquecer os seus fantasmas, e na busca da imortalidade, conhecer a sua própria mortalidade e realidade.

É um filme que não obedece aos normais padrões do cinema, não tem uma história que se traduza em todas as cenas, tem antes cenas que ajudam a traduzir a história, sem antes, por si só, serem pequenos manifestos. É exemplo a apresentação cuidada, satírica das personagens que acompanham o Ladrão e o Alquimista na busca da montanha mágica, ou mesmo, todos os encontros dos mesmos nessa viagem.

A primeira parte do filme apresenta o Ladrão e o seu companheiro deformado até chegarem ao templo do Alquimista. Nesta viagem os dois são confrontados com uma sociedade excessiva, do espectáculo, onde as mais bizarras cenas são vistas com curiosidade pelos Turistas que, as vivem como espectadores curiosos, participantes, que registam tudo com sorrisos e leviandade.

O Ladrão acaba, em determinada cena, por servir de molde a estátuas de Cristo, objectos mercantilizados por personagens vestidos de freira e romanos, numa crítica clara ao Catolicismo Romano em particular, e ao lado mais “comercial” das religiões em geral. O Ladrão depois de ver todas as cópias, acaba por as destruir, exceptuando uma com a qual deambula pela cidade, seguido do seu amigo deformado e um grupo de prostitutas (religiosamente prostitutas), acabando por a destruir também, após procurar colocá-la numa Igreja decadente sem sucesso, comendo a cara, neste caso a sua própria cara.

O caminho leva-o então à torre do Alquimista, onde após o tentar assassinar, rende-se ao seu carisma, e aceita-o como Mestre. Neste conjunto de cenas os cenários são ricos e recheados de simbologia, fundamentalmente do tarot e do horóscopo. O alquimista, mostra então ao ladrão, transformando os excrementos do ladrão em ouro, o valor da materialidade. De seguida oferece-e para o guiar, conjuntamente com mais seis personagens, a caminho da Montanha Mágica onde poderão descobrir os segredos da imortalidade.

Estas personagens são críticas ideal tipo à sociedade, o industrial, o conselheiro ministerial, a fabricante de brinquedos que manipula a infância, o carrasco, o artista que produz colecções de arte sazonais, etc…

Este grupo inicia a viagem, nessa vão-se despojando do passado, do materialismo, do que mais gostam, até chegar à montanha onde os 9 “quase-deus” se sentam, e que os mesmos devem despojar para atingir o conhecimento da imortalidade.

Neste caminho o Ladrão é sempre seguido de perto por uma prostituta, acompanhada de um chimpanzé, que lhe declara seu amor.

Não querendo revelar muito do filme para não vos estragar, e fazer estranhar esta experiência, este é um filme muito explícito, carregado de alegorias sexuais, de morte, fundamentalmente escatológico, não recomendado a quem goste de histórias lineares, limpinhas e perfeitas. Este é um filme imperfeito, de certa forma profético, acima de tudo surrealista que procura mais do que tudo levar o espectador a um conjunto de experiências que o façam reflectir sobre as coisas simples da realidade, as coisas comuns; é claramente um filme surrealista e a expor o real.

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